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Kit Review – CMR – FAFNIR II – São Paulo 1/72 #G-5020

Este planador foi considerado durante muito tempo o melhor do mundo, e serviu de referência de design para planadores até meados dos anos 50.

Antes de vermos mais detalhes sobre a história dessa aeronave que teve um trágico fim, vamos entender um pouco sobre o contexto histórico que se passava quando ela foi criada.

Durante os anos 30 o desenvolvimento de aeronaves militares estava proibido devido ao Tratado de Versalhes assinado com o fim da Primeira Guerra Mundial, entretanto as pesquisas na área foram de certa forma “mascaradas” em forma de desenvolvimento de aviões civis, e muitos deles foram desenvolvidos com o apoio da RRG ( Rhön – Rossitten Gesellschaft.) uma instituição civil com apoio oficial para promover e controlar o Planadorismo na Alemanha, ela permaneceu no controle até 1933, quando o DFS (Deustch Forschungsanstalt fuer Segelflug) – o corpo oficial que tomou o controle de desenvolvimento de aeronaves. Veja no vídeo ao lado como era o Planadorismo na década de 30.

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Na mesma época o Planadorismo foi introduzido como esporte de demonstração nas Olimpíadas de 1936 em Berlim, e agendado para entrar como esporte oficial nas Olimpíadas seguintes em 1940. Entretanto com a explosão da Segunda Guerra Mundial em 1939 a tentativa foi adiada, pois devido ao conflito a atividade foi suspensa em muitos países da Europa.

Após a guerra o planadorismo não retornou às Olimpíadas devido ao pouco número de planadores disponíveis para competir no pós guerra, e também devido a falta de padronização de modelos, uma vez que diversos modelos diferentes competiam entre si. Mais tarde uma nova tentativa de introduzir o esporte foi proposta pela FAI (Fédération Aéronautique Internationale – Federação Aeronáutica Internacional) mas rejeitada pelo comitê olímpico devido ao baixo interesse do público.

Em virtude do Nazismo crescente na Alemanha, a partir de 1933 quando a DFS assumiu o controle do planadorismo alemão, vários esquemas oficiais de identificação dos planadores foram adotados com cores diferentes que indicavam a região a que pertenciam, mas de maneira geral todas usavam faixas horizontais nas cores preta, branca e vermelha (a bandeira nacional da Alemanha) do lado direito da empenagem e do lado esquerdo a Swastika em um círculo branco dentro de uma faixa vermelha, que às vezes se estendia até o leme. Freqüentemente o nome do clube, de uma pessoa influente ou de uma cidade eram pintados na fuselagem após a letra D (Deustchland).

Os planadores não possuíam uma pintura padrão, eram normalmente de madeira compensada ou birch envernizados, e as partes centrais da asa eram sedas com DOPE, que com o tempo mudavam de cor, devido à exposição ao sol.

O  FAFNIR

Fafnir I e seu piloto Groenhoff

O nome Fafnir tem origem em um personagem da mitologia nórdica, um anão poderoso e destemido que mata seu pai por causa de um tesouro e acaba transformando-se em um dragão. Foram construídos três Fafnir, o Fanir I, Fanir II (construído a partir do Fafnir I após um acidente) e o Fafnir II São Paulo.

A princípio o Fafnir I possuía um cockit bastante limitado, e sem visão frontal, o piloto devia olhar por pequenas janelas de cerca de 2ocm de diâmetro nas laterais, sua fuselagem havia sido projetada para um pequeno piloto chamado Gunther Groenhoff, e tinha apenas 55cm de largura. Muitos recordes foram quebrados com o Fafnir I, mas devido a um acidente, que resultou na morte do piloto Groenhoff, ele teve que ser reconstruído. Assim nascia o Fafnir II. O Fafnir II foi um aperfeiçoamento do Fafnir I que tinha asas e fuselagem diferentes

Liderados pelo professor Giorgii, Wolf  Hirth, Heinrich Dittmar, Peter Riedel e Hanna Reitsch fizeram uma expedição a América do Sul no ano de 1934, afim de divulgar o planadorismo. Naquela ocasião alguns recordes mundiais foram quebrados, voando o Fafnir II Riedel voou por cerca de 7 horas sobre a cidade de Buenos Aires, quebrando o recorde Sul Americano de permanência em vôo planado.

Janela para pilotagem no cockpit do Fafnir I

Em 17 de fevereiro daquele ano Hanna Reitschi quebrou o recorde mundial de altutite para mulheres, voando na cidade do Rio de Janeiro, e tornou-se a primeira mulher a alcançar 2000metros a bordo de um planador, no mesmo dia Dittmar, a bordo de seu Condor, alcançou 4200m de altitude em um vôo, quebrando o recorde mundial de altitude para homens em um vôo que durou cerca de 1h30. O recorde anterior era de Robert Kronfeld, com 2589m alcançados no ano de 1929.

Após o retorno para a alemanha o Fafnir II foi levado para o Museu de Aviação Alemã (Deutsche Luftfahrtsammlung), mas foi destruído durante a guerra em um bombardeio dos aliados.

Membros da Expedição vieram para a América do Sul

Dittmar e seu Fafnir II no hipódromo da Gávea
Fafnir e Groenhoff

Fafnir I destruído, acidente que vitimou o jovem piloto Groenhoff

Fafnir I reconstruído, e batizado como Fafnir II

o Fafnir II em seu último descanso no museu nacional de aviação, antes de ser destruído pelo Aliados na Segunda Guerra Mundial

O nascimento do FAFNIR II São Paulo

Diante do sucesso da expedição à América do Sul, um grupo de alemães residentes na cidade de São Paulo enviou dinheiro para financiar um novo Fafnir II (que já estava em desenvolvimento).Em homenagem a estas pessoas, Lippisch o batizaria de São Paulo.

Fafnir II São Paulo – Note que os ailerons tem dois “horns”

Na universidade de Goettinguen durante os anos 30, H. Muttray desenvolveu uma série de estudos em túnel de vento, e descobriu que uma asa colocada na posição média da fuselagem reduzia consideravelmente o arrasto produzido, ele também descobriu que quanto mais uniforme a junção da asa à fuselagem melhor seria o desempenho, baseado nestes resultados Alexander Lippisch desenvolveu o Fafnir II.

 

Com um perfil aerodinâmico com menor curvatura desenvolvido por Lippisch ele voou em 1934.  A fuselagem foi desenhada e projetada seção por seção, o bordo de fuga das asas eram curvados para trás. Mais tarde o nariz do modelo foi remodelado para uma forma mais suave e aerodinâmica. A construção era toda em madeira com as cavernas laminadas e as asas enteladas com DOPE na área central e a sua estrutura era do tipo treliça, com seções cruzadas.

 

Fafnir II São Paulo

Naquele mesmo ano o Fafnir II São Paulo voou e tornou-se o melhor planador daquela época, pilotado Dittmar bateu o recorde mundial de distância, voando 375km, pousando na Tchecoslováquia, com os testes de vôo e resultados, chegou-se a conclusão que o Fafnir II São Paulo tinha uma razão de planeio de 26,1:1 (bem próximo de alguns planadores modernos, como o Let Blanik que tem razão 28:1)

Após vencer algumas competições, em 1937 Dittmar voou o Fafnir II São Paulo pela última vez em competições, completando uma distância somada de 1438km em apenas 7 dias.

Mesmo depos de ser retirado das competições o Fafnir II São Paulo continuou voando no quartel general da DFS, quando em 1945 ele foi descoberto intacto pelos exércitos aliados.

J.S. Sproule um projetista e piloto de planadores que havia trabalhado pra a Slingsby, conseguiu chegar a tempo de salvar algumas partes do planador antes que os soldados britânicos o queimassem por completo, naquela época os soldados aliados tinham uma ordem superior para destruir todos os aviões inimigos que encontrassem. Era o fim de um planador que estava à frente de seu tempo.

Dados Técnicos Fafnir II – São Paulo

Pesovazio 270kg, em vôo 382kg
Área Alar17,7 m2
Carga Alar21,6kg/m2
Razão de Aspecto20.4
Envergadura19m
Comprimento7,91m
Largura da Fuselagem0,60m
AerofólioDFS Special
Melhor planeio26:1 a 66.5km/h
Stol54km/h

Após a construção do Fafnir II São Paulo, Lippisch voltou-se ao desenvolvimento de planadores sem cauda, as famosas asas voadoras, ele desenvolveu um planador sem asas que mais tarde se tornaria no temível  caça Me-163 Komet, movido por foguetes.

O estudo de Lippischi com as asas voadores, influenciaria depois os irmãos Horten, que projetaram muitos modelos neste estilo, e mais tarde ainda após a guerra seus projetos influenciariam a criação do Bombardeiro Americano Stealth B-2.

Bibliografia

SIMONS, Martin. The World´s Vintage Sailplanes, Kookaburra Technical Publications, Melbourne. 1986

SIMONS, Martin. Salplanes 1920 – 1945. EQIP Werbung & Verlag, Alemanha. 2006

LIPPISCH, Luftfahrtforschung, Spilber. Alemanha. 1937

Websites:

http://www.scalesoaring.co.uk – acessado em junho de 2010

http://www.segelflug.de – acessado em junho de 2010

http://www.ftha.rwth-aachen.de acessado em junho de 2010

http://www.planadoresjundiai.org.br – acessado em junho de 2010

http://www.youtube.com/user/Bomberguy – acessado em junho de 2010

O Kit

Fabricado pela CMR (Czech Master Resin), o kit é simples e com poucas peças. São cerca de 10 peças moldadas em resina clara. O acabamento da resina é excelente, em todo o kit encontrei apenas duas marcas, uma bolha na parte inferior da fuselagem, e pequenas marcas nos estabilizadores horizontais.

Acompanha o kit uma folha A4 impressa em escala 1/72 que facilita a colocação dos decalques.

Dittmar e seu Fafnir II São Paulo, na época, 1934, eles detinham o recorde mundial de distância

Existe apenas talvez um engano de interpretação ou falta de fontes de informação em minha pesquisa, pois o decalque de número 7 com as identificações da aeronave deve ser colado no nariz, e não na fuselagem próximo a cauda como indicado no manual. Vejam esta foto a seguir em que o piloto Dittmar posa ao lado do planador. Não está muito claro para identificar muito bem o que há escrito, mas é provavel que seja algo assim:

Hersteller: DFS (Fabricante: DFS)

Werknumber: 23( Número de Fabricação 23)

Baujahr, 1934 (Ano de construção: 1934)

Erpro. (usuários permitidos ? primeiro vôo)

NT. Nota para a foto, escrita por Martin Simons

A montagem é bem simples e rápida, a única dificuldade é acertar o ângulo correto de colagem das asas, mas um pouco de lixa e muita paciência dão conta do recado.

O kit não tem manual de instruções, entretanto devido a pequena quantidade de peças e sua simplicidade, realmente não é necessário. Apenas uma foto segue como ilustração para instalação do tubo de pitot e da buzina de stol.

Algumas fotos,

Os decalques tem uma boa apresentação e impressão, creio que não haverá problemas na hora da montagem. A swastika vem partida, pois em alguns países da Europa sua exibição, mesmo em modelos, é proibida. (percebe-se pela tampa da caixa que omite o seu desenho)

Nao vejo pontos negativos no kit, exceto pelo canopy em vacumm formed, que para os menos experientes pode ser um desafio um tanto quanto complexo, mas o pessoal da CMR colocou dois no kit, o que de certa forma deixa até os mais experientes um pouco mais tranquilos.

Definitivamente é um kit muito interessante a ser colocado na coleção, pois a adição da Swastika juntamente com o nome São Paulo é bastante incomum.

Por se um kit bem simples, é altamente recomendado para quem quer se aventurar em kits de resina pela primeira vez.

Este kit pode ser comprado na Modelimex, para quem nunca comprou nesta loja, aqui tem um tutorial, explicando o passo a passo e os descontos no preço.

Meus sinceros agradecimentos ao pessoal da Modelimex por fornecer mais este kit para review.

Este kit já está na bancada, em breve postarei a montagem passo a passo aqui para vocês. Fiquem ligados.

É isso aí pessoal, espero que tenham gostado e até a próxima !

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13 Thoughts to “Kit Review – CMR – FAFNIR II – São Paulo 1/72 #G-5020”

  1. FLAVIÃO

    Ola Lucas,

    Como anda seu projeto do Fafnir em escala reduzida? Já iniciou o projeto para a construção? conseguiu a planta no site que te indiquei.
    O meu de 5,50 metros já esta pronto e estou aguardando rebocador para voar.
    Iniciei a construção do meu segundo Fafnir, tambem com 5,50 mts. de envergadura e estou estudando a póssibilidade de com a planta do Fafnir I adapta-la a construção do Fafnir II.
    Se voce tiver mais informações tecnicas do Fafnir II e puder me informar ficarei grato.

    Parabens pela iniciativa,

    FLAVIÃO.

    1. Opa,

      Legal visitar meu Blog Flavião 😀 !

      Dá uma olhada aqui no Blog que eu já construí esse modelo em escala heheh

      Quanto ao aeromodelo eu peguei a planta sim, muito obrigado!! Agora meu problema só está sendo tempo para desenhá-lo, a cortadora Laser CNC já chegou e estou aprendendo ainda a trabalhar com ela heheh

      Quero construr o meu em torno de 2,5 ~3m de envergadura…

      Manda umas fotos depois que eu quero ver o seu Fafnir pronto..

      Aeroabraço e obrigado !

      Lucas

  2. Cebola

    Olá Lucas

    O Fafnir deixou um irmão aqui, foi o Flamingo, que partia do mesmo desenho, porém com canopy.Fio construido em Baurú, sob dicas do Ditmar

    No Vôo a Vela , esporte que pratico, existem algumas pessoas que conheceram o heini Ditmar, aqui, pelos anos 30, são antigos pilotos, que não voam mais, porém contam historias incríveis.

    Gostei de ler algo sobre um planador, aliás muito bem pesquisado.

    Cebola

    1. Sim Cebola, aliás nossa história aeronáutica é fenomenal, cheia de grandes personalidades, com grandes nomes como o Dittmar, a Hanna Reitsch, entre muitos outros. Eles foram muito influentes em nossa história aeronáutica.
      É realmente uma pena que o povo brasileito de maneira geral não preserve sua história… 🙁

      Esse é um dos motivos que me fizeram apaixonar pelo modelismo, pois ele resgata a história, e sabemos muito bem da importância de conhecê-la

      Quando à pesquisa, muito obrigado, fico feliz que tenha gostado, eu também sou piloto de planadores, e eles são uma grande paixão em minha vida, ainda vou publicar mais algumas coisas sobre eles..

      Alguns fabricantes como a CMR, e outros do Leste Europeu têm voltado seus olhos para essas aeronaves, e já temos uma boa linha em produção atualmente…

      É isso aí, Plastiabraços !

  3. franneto

    São Paulo tá em todas.Viva Sampa!!!!

    Modelismo também é uma fonte de cultura.

    Abraço,franneto

    1. Pois é, o modelismo não é só colar algumas peças e pintar hehehe, acredito que o modelismo de maneira geral é uma fonte inesgotável de cultura.
      Forte abraço,

  4. Andre Piovan

    Parabens veio, nem sabia da existencia desse planador! Lucas tambem eh cultura!

    Abs

    1. Obrigado André ! Fico feliz que gostou do review 😀 hehehe

      Fica ligado que sempre tem novidade por aqui !!

      Plastiabraço !

  5. Andre Piovan

    Parabens pelo review veio, nem conhecia esta maquina! Lucas tambem eh cultura!

    Manda mais!

    Abs

  6. Marcos Borges

    Blza Lucas.
    Parabéns pelo excelente review.
    Gostei muito de saber que existem planadores assim em resina.
    Abcs.
    Marcos.

    1. Obrigado Marcos ! Que bom que gostou do review 😀

      Sim, a CMR produz um linha bem ampla dos planadores mais famosos, dos mais antigos até os mais modernos, algun kits possuem ate detalhamento em Photoetched (produzidos pela Eduard). Vale a pena dar uma olhada no site deles e a Modelimex tem toda a linha de kits da CMR para venda 😉

      Valeu !

  7. OSWALDO ANTONELLI

    Deve ser bem dificil montar um planador na resina, mas é um belissimo modelo, e único, inusitado.

    Muito legal mesmo.

    Parabéns pelo review ai, Lucas!

    Abraços.

    1. Obrigado Oswaldo que bom que gostou, olha, kits em resina não são tão complicados assim não, eu diria que exigem um poquinho mais de capricho e paciência na montagem, esse tipo de kit que eu fiz o review é perfeito pra quem quer começar a montar kits assim, vale a pena.

      Plastiabraços !

      Lucas

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